Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘despedida’

O momento definitivo

Cristiano Andujar/Divulgação

Quando Guga colocou a camiseta laranja e vermelha, raqueteira nas costas e pisou na quadra para enfrentar Franco Ferreiro, sabia que vencer a partida era improvável. Fizera seu dever de casa dois dias antes, ao dar de bandeja para a torcida o sabor daquela que talvez seja a última vitória no tênis profissional.

Mesmo assim, tentou ganhar. Entrou com garra, agressivo, quebrou o saque do adversário, mas perdeu o duro primeiro set por 7/5. Não conseguiu acertar nenhuma bola um pouco mais complicada na direita, lado frágil do quadril.

Na segunda parcial, o adversário Franco Ferreiro voltou forte e abriu 3/0, com duas quebras. O abatimento tomou conta da sala de imprensa. Pensei: “É, agora acho que foi”. Os outros jornalistas trabalhavam de cabeça baixa em seus notebooks, antecipando os leads no coro “Guga perdeu por 2 a 0 na sua despedida do Brasil”.

A vaca estava indo para o brejo. Mas um grupo de torcedores resolveu invocar a garra de Guga aos gritos e foi seguido por boa parte das 4 mil pessoas presentes no Costão do Santinho. O tenista, então, decidiu aproveitar a partida, dar show para o público.

Percebeu mais uma vez que seu carisma está intacto. Fez a ola com a torcida e comemorou com sorrisos cada ponto conquistado. O público respondia com mais vibração. Isso tocou o tenista naquilo que ele tem de mais surpreendente, o emocional.

Sentindo todas aquelas vibrações positivas que o Larri Passos tanto gosta de trabalhar, viu que podia ser mais uma vez o número um do mundo. Jogou Ferreiro de um lado para o outro, botou o adversário para correr em direção à rede – e não alcançar as deixadinhas -, desferiu golpes da esquerda fulminante. Parecia que a dor tinha se rendido à força de vontade. E Guga equilibrou a partida.

Quando todos se davam por satisfeitos, o momento definitivo. A bola veio boa na esquerda e Guga deve ter pensado rapidamente se devolvia na cruzada ou arriscava uma paralela. A decisão é rápida.

Quase de costas para a quadra, Guga acertou a empunhadura, pisou lá na frente, começou a girar o tronco e trouxe a raquete, acertando a bolinha um pouco abaixo do quadril. Terminou com os braços bem abertos, em pé, e uma versão prolongada daqueles seus gemidos tradicionais: “Uuuuuhhh-aaahhhhhnnnnnnnnnnnn!!!”. E assim ficou por uns três ou quatro segundos. O golpe, um petardo na paralela como nos velhos tempos, não deu chances a Ferreiro. A execução é perfeita.

Guardo esse lance com carinho na memória. Foi um grande jogo e, sem dúvida, o maior momento esportivo que presenciei nessa vida de quase 23 anos.

O adeus ficou mais digno. Era mesmo o tri de Roland Garros que estava em quadra. A torcida delirou, aplaudiu, gritou, e todo mundo agradeceu por estar ali. Ninguém ligou se o coadjuvante da festa venceu a partida. O show acabou naquela paralela de esquerda.

——————————————————————————————————————————

Alemonada 1: Esse lance do Guga me lembrou uma jogada de outro gênio, essa aqui, que vi aos 13 anos. Aos 15 segundos do fim do sexto jogo da final da temporada 97/98 da NBA, Jordan fez os dois pontos que deram a vitória e o título ao Chicago Bulls. Foram os últimos pontos do astro no lendário Bulls dos anos 90. E lá está ele, arremessando, acertando e mantendo a posição do tiro: braço erguido, mão quebrada. Outro momento definitivo do esporte.

Alemonada 2: Ao fazer meu TCC sobre o Guga, duas coisas ficaram bem claras para mim. Ele não é extremamente talentoso, não foi o mais habilidoso, nem o mais rápido, ágil ou forte. Mas treinou arduamente para ser o melhor que podia. E foi. No entanto, sua melhor qualidade estava na cabeça, a capacidade de superar situações difíceis, dentro e fora da quadra. Nas palavras do treinador Paulo Cleto, Guga é o “gênio emocional”.

Alemonada 3: Em Florianópolis, Guga Kuerten é mais Guga e menos Kuerten. É menos tenista e mais o filho da dona Alice e do saudoso Aldo. E que assim seja daqui para a frente. Vai surfar, Guga!

Read Full Post »

E não é que…

Flávio Neves/Agência RBS

…o Guga ganhou? E foi um momento para não se esquecer. Guga, claro, não chega perto do tenista que um dia foi número um do mundo. Mas, com uma combinação de clima favorável – que torcida! -, adversário assustado e ansioso, e dia bom – o saque fez a diferença -, a vitória veio em dois sets.

O próximo adversário é Franco Ferreiro, gaúcho de Uruguaiana. O que se ouve na sala de imprensa, de pessoas que conhecem o tenista, é que ele é um jogador irreverente – para não dizer debochado e arrogante. Gosta de jogar com torcida contra. Bom, o que dá para ter certeza é que é melhor que o colombiano Salamanca.

Guga disse que vai de franco-atirador nessa partida. Tá certo. A missão dele está feita. Uma vitória na turnê de despedida o recoloca no ranking mundial até, pelo menos, abril do ano que vem. Esse segundo jogo de simples será na quinta-feira, muito provavelmente no mesmo horário, às 19h. Nesta quarta, tem a partida de duplas, ao lado do jovem Tiago Fernandes.

Alemonada 1: Bate uma tristeza ver o Guga arrumar o quadril várias vezes durante a partida. Só faltou ouvir o “créc” para que parecesse mais dolorido.

Alemonada 2: Bom ver que não sou só eu que fico emocionado ao ver o Guga na turnê de despedida. Um amigo confessou que deixou escapar duas ou três lágrimas durante a partida…

Alemonada 3 (atualizado às 12h): E a cara de que vai chover o dia todo na capital dos catarinenses?

Read Full Post »

Amanhã tem história

Jean Loup Gautreau/AFP

Dá para saber, geralmente, quando se está diante de um momento histórico. Daqueles que você vai lembrar para sempre e que vai fazer parte da retrospectiva na última sexta-feira do ano. Coisa de quem viu, ao vivo, Pedro Bial fazendo passagem em frente à multidão que arrancava pedaços do Muro de Berlim ou de quem pagou ingresso para uma corrida de carros com a família e viu a Williams de Ayrton Senna se espatifar na Tamburello.

Amanhã é a minha vez. A minha e a de todos que estarão no Aberto de Santa Catarina para torcer pela última vez e se emocionar com aquele que fez o improvável, o Guga. Não falo só de títulos. Falo de se levantar a cabeça quando tudo conspira contra e de manter a humildade do tamanho de sua fama.

Ao lado de Senna e Pelé, Guga faz parte da tríade intocável de ídolos brasileiros. Esses heróis que nascem de vez em quando para serem exemplos de sucesso, garra e determinação. Mitos com nome simples, duas sílabas, de pronúncia fácil para a criança e para o adulto em qualquer parte do mundo. A marca de um país diferente de todos os outros, de contrastes, que tornou lendas de igual grandeza o filho do rico, do pobre e da família de classe média. É o símbolo de tudo que o Brasil, na alma do povo, quer.

Contestem ou não, Pelé, Senna e Guga deixaram o esporte no topo daquilo que ele representa. Um foi o melhor no que fez, sem dúvida; outro, um determinado incurável; o terceiro, levou o sorriso, a alegria e a satisfação de poder jogar. Fico com a manchete do jornal francês L`Équipe após o primeiro título de Roland Garros, em 97: “Obrigado pelo sorriso”.

Amanhã, vou ver o Guga fazer história.

Alemonada 1: Thomaz Belucci sentiu a pressão de defender o Brasil pela Copa Davis em casa e com favoritismo. Perdeu a primeira partida para a Colômbia. Mas ainda boto fé no garoto. Não peço nem espero outro Guga. Mas um top 100, 80, 50 – tanto faz a idade em que o tenista alcance isso – ajudaria o esporte a se desenvolver. Quero vê-lo e o João Souza, o Feijão, no Aberto de SC.

Alemonada 2: Se a história da parceria entre Correios e Confederação Brasileira de Tênis se confirmar e for bem trabalhada, teremos aí o mais importante impulso para o tênis desde os primeiros títulos de Guga.

Read Full Post »